Abismo do Medo (The Descent, Inglaterra, 2005)


Em 2002, Neil Marshall presenteou os fãs do cinema de horror com o cultuado “Cães de Caça” (Dog Soldiers), uma história violenta de lobisomens com divertidos elementos de humor negro. Três anos depois, o mesmo cineasta lançou sua contribuição aos filmes sobre ambientes carregados de claustrofobia com “Abismo do Medo” (The Descent), que chegou nos cinemas brasileiros em 22/09/06, distribuído pela “California Filmes”.
Na história, um grupo de seis mulheres se aventura por uma caverna à procura de diversão e elas são surpreendidas por um pequeno desmoronamento que impede o retorno à superfície pela mesma entrada. O grupo é formado pela líder Juno (Natalie Jackson Mendoza), ao lado das companheiras Sarah (Shauna Macdonald), que teve uma experiência traumática num acidente fatal com sua filha pequena Jessica (Molly Kayll), Beth (Alex Reid), Rebecca (Saskia Mulder), Sam (MyAnna Buring) e Holly (Nora-Jane Noone).
Após o imprevisível tremor, elas são obrigadas a procurar uma saída alternativa, enfrentando uma série de obstáculos como a escuridão opressora, o medo do confinamento, e a passagem por locais apertados com o terrível sentimento de claustrofobia de um ambiente desconhecido e soterrado. Contudo, elas não imaginariam que o maior problema a ser enfrentado seria outro ainda pior: a improvável possibilidade de encontrarem formas grotescas de vida parecidas com homens, porém não humanas, vivendo primitivamente nas profundezas dos infindáveis fossos, com características extremamente violentas e carnívoras, e que estariam interessadas diretamente em saborear suas carnes.
“Abismo do Medo” é um dos grandes filmes de horror que foram exibidos nos cinemas brasileiros em 2006, ao lado de “Wolf Creek – Viagem ao Inferno”, “Espíritos – A Morte Está Ao Seu Lado” (Shutter), “O Albergue” (Hostel), “Viagem Maldita” (The Hills Have Eyes) e outros, provando ser um ano bem favorável ao cinema de horror.
Dirigido e escrito por Neil Marshall, o filme tem todos os elementos necessários para deixar o espectador tenso, manipulando suas emoções, fazendo-o testemunhar desde a deterioração progressiva do relacionamento das mulheres, obrigadas a lutarem por suas vidas num local fechado, até o confronto brutal com criaturas bizarras que querem o sangue dos invasores de seu território e destroçar seus corpos frágeis com garras afiadas.
Altamente recomendável para quem procura tensão, violência, sangue em profusão e um desfecho depressivo.
N.A.: Em 2009 foi lançado em DVD no Brasil a continuação “Abismo do Medo 2” (The Descent: Part 2), mostrando eventos imediatamente posteriores ao desfecho do filme original, com o retorno das atrizes Natalie Jackson Mendoza e Shauna Macdonald.

“Abismo do Medo” (The Descent, Inglaterra, 2005) # 400 – data: 29/09/06 – avaliação: 9 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com / blog: www.juvenatrix.blogspot.com (postado em 29/09/06)

À Meia Luz (versões de 1940 e 44)



Para quem aprecia cinema antigo, com fotografia em preto e branco, roteiro sem violência ou elementos sobrenaturais, mas com um suspense sutil, discreto e bem construído, uma dica pode ser conhecer ambas as versões de “À Meia Luz” (Gaslight), com história baseada na peça teatral de Patrick Hamilton. O primeiro filme é inglês de 1940, menos conhecido, dirigido por Thorold Dickinson e estrelado por Anton Walbrook e Diana Wynyard. Já o filme seguinte é americano de 1944, muito mais badalado, produzido pela “MGM”, dirigido por George Cukor e com um elenco formado por astros famosos como Charles Boyer, a bela Ingrid Bergman, Joseph Cotten e Angela Lansbury (em seu primeiro filme). Logicamente que ambos os filmes possuem sua própria liberdade de criação e existem pequenas diferenças, mas de uma forma geral, os roteiros são bem parecidos, trazendo vários elementos comuns.

Versão de 1940

Ambientada na Londres do início do século XX, “À Meia Luz” começa com um assassinato brutal de uma senhora idosa, Alice Barlow (Marie Dexter), dentro de sua própria casa, a número 12 de “Pimlici Square”. O crime não foi desvendado pela polícia e o local perdeu seu valor imobiliário, sendo que demorou vinte anos para a casa ser ocupada novamente. E os novos moradores são o casal Mallen, formado por Paul (Anton Walbrook) e Bella (Diana Wynyard), que contrataram duas arrumadeiras, Elizabeth (Minnie Rayner) e a jovem e bela Nancy (Cathleen Cordell).
Porém, o casal enfrenta constantes crises conjugais, onde o marido possessivo tem que lidar com uma aparente doença em sua esposa, que supostamente se apossa de objetos da casa e os esconde, além de ter alucinações e sonhos estranhos, com sintomas que parecem evidenciar um processo progressivo de insanidade. Por isso, ela não sai de casa, sendo sempre submissa ao marido e imagina ver coisas como a misteriosa variação de intensidade da luz movida a gás de seu quarto (daí o título original de “Gaslight”), ou ouvir passos no andar de cima de sua casa imensa. Por outro lado, Paul parece cada vez mais impaciente com a esposa, acusando-a de pequenos furtos e vestígios de loucura, perturbação e desequilíbrio emocional. Ele também sai toda noite de forma misteriosa e demonstra uma atração pela bela empregada Nancy.
Em paralelo, um ex-policial que esteve envolvido na investigação da morte da Sra. Barlow há muitos anos atrás na fatídica casa número 12, e que depois de aposentado tornou-se proprietário de um estábulo próximo, Sr. B. G. Rough (Frank Pettingell), se interessa pelos novos moradores e vizinhos e por curiosidade inicia uma investigação pessoal da identidade deles, vasculhando o passado da casa e detalhes sobre o terrível assassinato que marcou o local. Ajudado eventualmente por um empregado de seu comércio, o jovem Cobb (Jimmy Hanley), que fez amizade com a arrumadeira Nancy, e utilizando suas habilidades adquiridas quando era policial, o Sr. Rough entra em contato com um primo de Bella Mallen, o Sr. Vincent Ullswater (Robert Newton), e descobre pistas importantes que podem revelar o perigoso mistério envolvendo o crime da Sra. Barlow, a enorme casa e os novos moradores.

Essa versão inglesa de 1940 de “À Meia Luz” tem uma produção modesta, metragem curta (apenas 84 minutos), atores pouco conhecidos e é bem menos famosa que a premiada produção americana de quatro anos depois. Mas, independente desse fato, o filme tem seu valor como um bom exemplo de suspense que procura de forma sutil desenvolver uma história de assassinato, loucura e mistério, sem exageros e sem o uso de ação desenfreada e cortes bruscos, utilizando apenas situações sugeridas, como ruídos misteriosos e luzes que falham e diminuem de intensidade.
Ao seu favor e no meu ponto de vista, o filme tem duas vantagens sobre a produção americana: o ator Anton Walbrook tem uma interpretação mais convincente como um marido possessivo que quer enlouquecer a esposa (em relação ao colega de profissão Charles Boyer, apesar dele ser muito mais famoso e renomado e de ter inclusive sido indicado ao “Oscar” por sua atuação), e também por apresentar um início (com a morte de Alice Barlow) e desfecho (com a revelação do mistério) bem mais intensos e apropriados para o contexto da história.

Versão de 1944

Uma famosa cantora e atriz, Alice Alquist, é misteriosamente assassinada em sua casa, a número 9 de “Thornton Square”, em Londres. A polícia não consegue descobrir o autor do crime e seus motivos, e a sobrinha da cantora, Paula (Ingrid Bergman), fica abalada pelo acontecimento trágico, se mudando para a Itália, onde passa a ter aulas de canto de ópera com o renomado Maestro Guardi (Emil Rameau).
Lá, ela se apaixona pelo pianista Gregory Anton (Charles Boyer), e rapidamente eles se casam e vão morar na Inglaterra, na mesma casa onde a tia de Paula foi assassinada 10 anos antes. Para servi-los, eles contratam a cozinheira Elizabeth (Barbara Everest) e a bela jovem arrumadeira Nancy (Angela Lansbury, na época com 17 anos, completando 18 durante as filmagens).
A partir daí, os problemas têm início com o agravamento progressivo do relacionamento do casal, com o marido Gregory insinuando de forma cada vez mais crescente que sua esposa pudesse estar perdendo a sanidade, ao esconder objetos, ouvir passos no sótão, sofrer supostas alucinações com a luz movida a gás variando aleatoriamente de intensidade, e outras anormalidades.
As únicas pessoas que tentam um contato amigável com Paula são uma vizinha idosa, solteirona e bastante curiosa, a Srta. Thwaites (Dame May Whitty), e um investigador de polícia, Brian Cameron (Joseph Cotten), que conta com a ajuda eventual de um policial que faz a ronda noturna do local, Williams (Tom Stevenson), cujo fato de ter um pequeno romance com a empregada Nancy propicia com que obtenha informações interessantes do que se passa na casa dos patrões dela. O detetive decide então fazer uma investigação particular sobre o passado da casa com o assassinato de Alice Alquist e a relação com sua sobrinha Paula e o misterioso marido Gregory, que possui um comportamento estranho e suspeito.

A versão americana de 1944 é muito mais conhecida que a antecessora feita pelos ingleses. O filme tem uma produção caprichada, metragem maior (114 minutos), um diretor conceituado e um elenco expressivo. Esses quesitos favoráveis são motivos mais do que suficientes para despertar o interesse e atenção do público, garantindo um sucesso comercial. Foi também o responsável pela premiação de um “Oscar” para a atriz Ingrid Bergman, por sua performance como a esposa atormentada que estaria perdendo gradativamente o controle de sua mente. E realmente, sua interpretação é magnífica, muito superior à de Diana Wynyard no filme de 1940, tanto que ela, preparando-se para o papel, estudou detalhadamente as expressões faciais e movimentos dos olhos de pessoas com reais problemas de loucura e internadas em manicômios. Além disso, outro mérito do filme, graças ao cuidado da produção, foi o de garantir mais um “Oscar” para a equipe, dessa vez na direção de arte voltada para a decoração dos ambientes interiores.
Por outro lado, de forma desfavorável em relação ao filme inglês, faltou mais ousadia no roteiro dessa versão de 1944, principalmente na decisão de não mostrar o assassinato de Alice Alquist (que é a premissa básica para toda a história), e pela opção de escolher um final convencional demais e bem menos dramático que no filme anterior de 1940.

Para a satisfação dos colecionadores, a “Warner Brothers” lançou no mercado brasileiro de DVD ambos os filmes num único disco, com o “lado A” trazendo a versão mais famosa (1944) e no “lado B” a versão inglesa de 1940, num esquema similar que também foi feito com as versões de 1932 e 41 de “O Médico e o Monstro”, e com as versões de 1933 e 53 de “Museu de Cera”.
O DVD com as duas versões de “À Meia Luz” traz materiais extras apenas referentes ao filme de 1944: um documentário legendado de 13 minutos intitulado “Reflexões sobre À Meia Luz” (Reflections on Gaslight), apresentado por Pia Lindstrom, filha de Ingrid Bergman; um trecho também legendado da cerimônia de premiação do “Oscar” de 1944, destacando o melhor ator (Bing Crosby, recebendo a estatueta das mãos de Gary Cooper), a melhor atriz (Ingrid Bergman, recebendo de Jennifer Jones) e a melhor atriz infantil (Margaret O´Brien, recebendo do diretor Mervin Leroy), com a narração de John B. Kennedy; e finalizando com um trailer promocional de dois minutos de duração e sem legendas em português.

“À Meia Luz” (Gaslight, Inglaterra, 1940) # 398 – data: 08/09/06 – avaliação: 7,5 (de 0 a 10)
“À Meia Luz” (Gaslight, Estados Unidos, 1944) # 398 – data: 08/09/06 – avaliação: 7,5 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com / blog: www.juvenatrix.blogspot.com (postado em 08/09/06)

O Som do Trovão (A Sound of Thunder, EUA / Alemanha / República Tcheca, 2005)


No ano 2055, uma nova tecnologia foi inventada que poderia mudar o mundo, ou destruí-lo. Um homem chamado Charles Hatton a usou para ganhar dinheiro.

                A primeira ideia que vem à cabeça depois de ver “O Som do Trovão” (A Sound of Thunder), é um questionamento sobre por que esse filme não foi exibido em nossos cinemas, sendo apenas lançado diretamente no mercado de DVD (pela “Europa”, em Março de 2006). Pois o filme reúne alguns elementos favoráveis do ponto de vista comercial, tendo um bom potencial para entrar em cartaz nas salas de exibição, ou seja, é uma super produção de 80 milhões de dólares, um típico filme pipoca com ação, aventura, e muitos efeitos especiais numa história de Ficção Científica e viagem no tempo. Por outro lado, filmes insignificantes como “Amaldiçoados” (Cursed), de Wes Craven, são exibidos nos cinemas quando deveriam ir direto para o vídeo. Isso apenas é mais uma das incoerências cometidas pelas distribuidoras responsáveis pelos filmes que chegam ao Brasil.
                Em “O Som do Trovão”, a ação é ambientada em 2055, época em que o Homem já havia criado uma forma de viajar no tempo. Um empresário rico e sem escrúpulos, Charles Hatton (Ben Kingsley), é dono de uma agência que faz viagens ao passado, a “Time Safari”, proporcionando aos seus clientes uma pequena e rápida, porém bastante convincente e real, turnê para o passado da humanidade, voltando 65 milhões de anos no tempo, em plena época dos dinossauros. Qualquer pessoa, depois de pagar uma quantia imensa em dinheiro, poderia participar de uma expedição e abater um alossauro em seu habitat natural (meticulosamente escolhido), pouco antes dele se atolar num pântano ou ser carbonizado na erupção de um vulcão.
                A expedição era sempre repetida com precisão para os vários clientes diferentes, sob a liderança do cientista Dr. Travis Ryer (Edward Burns), que contava com o auxílio de outros profissionais em sua equipe como a jovem Jennifer Krase (Jemima Rooper), responsável por registrar a caçada, Marcus Payne (David Oyelowo), o oficial de segurança, e o Dr. Lucas (Wilfried Hochholdinger), o médico que monitora as condições físicas dos clientes. Participa também das expedições um agente a serviço do governo (Departamento de Regulamentação Temporal), Clay Derris (August Zirner), cuja função é fiscalizar as ações para impedir que alguma interferência no passado possa gerar alguma conseqüência grave no tempo seguinte.
                E é justamente isso que acontece quando após um acidente numa das expedições, ocorre uma série de efeitos turbulentos no presente desestabilizando a vida como conhecemos e colocando em risco o planeta. Confirmando uma ameaça prevista pela cientista Dra. Sonia Rand (Catherine McCormack), a criadora do super computador que faz os cálculos de viagem no tempo, e que se une ao Dr. Ryer para tentar reverter o processo e colocar as coisas novamente em seu curso normal. Enfrentando uma infinidade de perigos como ondas de choque que modificam todo o processo evolutivo, e um mundo hostil infestado de plantas e animais mutantes como macacos dinossauros, morcegos monstruosos e serpentes aquáticas.
                Com direção de Peter Hyams (de “A Relíquia” e “Fim dos Dias”) e história inspirada por um conto do cultuado escritor de Ficção Científica Ray Bradbury, “O Som do Trovão” é uma aventura de viagem no tempo explorando as conseqüências graves causadas quando algum evento do passado (por menor que seja e mais insignificante que pareça) é inadvertidamente alterado, podendo culminar com a destruição do mundo que conhecemos. Dentro dessa ideia interessante, que sempre tem um potencial para o entretenimento, somos convidados a acompanhar a trajetória de um grupo de cientistas para tentar reparar um erro cometido e anular o efeito devastador de um evento alterado no tempo.
                Os efeitos especiais são uma atração à parte, mostrando desde a rotina de uma enorme cidade futurista, com seus belos e imensos prédios e tráfego intenso de carros, passando pela recriação de um ambiente pré-histórico de milhões de anos no passado habitado por dinossauros, até um mundo caótico dominado por uma realidade alternativa onde vivem criaturas mutantes desconhecidas por nós.
                Por outro lado, e servindo apenas para evidenciar que estamos vendo um filme comercial que privilegia exclusivamente um tipo de diversão simples e sem compromisso, temos aqueles conhecidos desfiles de clichês e situações absurdas, como por exemplo a queda do casal de cientistas, que para fugirem de uma invasão de insetos no apartamento da Dra. Rand, se jogam pela janela e caem de uma altura significativa por cima de algumas árvores e não sofrem nem um arranhão. Além do desfecho previsível que sempre tem que existir para satisfazer a maioria do público (faço parte da minoria e preferiria de vez em quando um pouco de ousadia dos roteiristas com um desfecho mais pessimista e diferente do trivial).
                Uma curiosidade interessante é quando o empresário Charles Hatton faz um discurso padrão para seus clientes nas viagens no tempo encorajando-os no desafio que enfrentarão ao confrontar um dinossauro real, citando eventos importantes na história da humanidade como Cristóvão Colombo ter descoberto a América, Neil Armstrong ter pisado na Lua, e de “Brubaker ter chegado em Marte” (será uma previsão?)... Aliás, Brubaker é o nome do comandante de uma expedição fraudada para Marte no thriller de FC “Capricórnio Um” (Capricorn One, 1978), dirigido também por Peter Hyams.

                Outra curiosidade é que as filmagens ocorreram em 2002 em Praga, na República Tcheca, e o filme deveria ter sido lançado em 2003. Mas, como aconteceram várias inundações naquele país europeu, os cenários foram danificados e os trabalhos de filmagens atrasaram muito, com o lançamento apenas em 2005.

1 – Não mude nada. 2 – Não deixe nada para trás. 3 – Não traga nada de volta.” – regras básicas que devem ser respeitadas em viagens no tempo

“O Som do Trovão” (A Sound of Thunder, Estados Unidos / Alemanha / República Tcheca, 2005) # 399 – data: 10/09/06 – avaliação: 6 (de 0 a 10)
site: www.bocadoinferno.com.br / blog: www.juvenatrix.blogspot.com.br (postado em 10/09/06)